Chuteiras cor-de-rosa viram febre no Mundial e têm explicação surpreendente

Foto: Caean Couto/Reuters

Não é só às quartas (de Brasileirão) que usamos rosa. É em basicamente todos os jogos da Copa do Mundo 2026.

Essa é a cor de muitas das chuteiras usadas pelos jogadores nas partidas: só no Brasil, já vimos Alisson, Vini Júnior, Bruno Guimarães, Endrick e Rafinha, por exemplo. Todas as grandes marcas de trajes esportivos lançaram uma versão magenta do produto para o Mundial.

Mas não é só por marketing (claro que há um interesse comercial na moda) ou por bom gosto. Existe uma explicação física para essa escolha: o rosa-choque contrasta com o verde do gramado e chama a atenção do torcedor, especialmente nas transmissões televisivas.

Imagine as ondas do mar. Se você olhar o rastro delas, algumas vêm em uma sequência bem espaçada, enquanto outras chegam coladinhas umas às outras, quebrando bem rápido.

Pois bem: as ondas de luz também têm esses espaçamentos e podem ser medidas. Dependendo do tamanho delas, nós as enxergamos de determinada cor.

Imagine as ondas do mar. Se você olhar o rastro delas, algumas vêm em uma sequência bem espaçada, enquanto outras chegam coladinhas umas às outras, quebrando bem rápido.

Pois bem: as ondas de luz também têm esses espaçamentos e podem ser medidas. Dependendo do tamanho delas, nós as enxergamos de determinada cor.

Bug no sistema: por que o rosa não aparece no arco-íris?

Se você olhar atentamente para um arco-íris real, vai notar algo intrigante: não existe rosa ali. Não há um comprimento de onda puramente "rosa".

Essa cor é, na verdade, uma criação da nossa cabeça (pois é).

Isso acontece porque os olhos humanos não enxergam diretamente os comprimentos de onda da luz. A retina possui células chamadas cones, sensíveis principalmente a três faixas do espectro: vermelho, verde e azul.

"Nós definimos essas três cores como cores primárias. A partir delas, podemos formar qualquer outra cor que enxergamos pelo processo de sobreposição. Na prática, independentemente de uma cor estar ou não no espectro visível, ela sempre é construída no nosso cérebro a partir das intensidades de vermelho, verde e azul", afirma Acauan Figueiredo, professor de Física do Curso Anglo.

Quando um jogador calça uma chuteira rosa-choque, o tecido do calçado reflete para os nossos olhos, ao mesmo tempo, luz vermelha (onda longa) e luz azulada/violeta (onda curta). O verde (onda média), que está no centro da régua, é totalmente absorvido pelo tecido e não chega aos nossos olhos.

Ou seja: a luz estimula as duas pontas opostas dos nossos receptores visuais.

“Imagine que o arco-íris é uma linha reta que começa no vermelho e termina no violeta. Para criar o rosa, o seu cérebro precisa ver a luz vermelha (onda longa) e a luz violeta (onda curta) batendo nos seus olhos ao mesmo tempo”, explica Felipe Ribeiro, professor de física da Universidade Federal Rural do Semi-Árido e coordenador do programa Ciência para Todos no Semiárido Potiguar.


“Como essas duas cores estão em pontas opostas daquela linha, o cérebro não consegue simplesmente escolher uma cor no meio do caminho, então ele fecha o círculo e inventa uma cor nova para misturar as duas, que é o rosa ou o magenta.”

Já vimos que o cérebro tende a unir visualmente as duas pontas da reta, certo? Com isso, ele a transforma em um anel, criando uma "ponte" formada pelo rosa.

No círculo cromático, as cores que ficam exatamente em posições opostas são chamadas de cores complementares. Elas oferecem o maior contraste possível aos olhos humanos. E o oposto exato do verde do gramado é... o rosa-choque.

Quando a chuteira entra no campo, acontece um fenômeno chamado contraste simultâneo.

Como passamos muito tempo observando uma superfície predominantemente verde, o sistema visual se adapta a essa cor. Quando surge um objeto magenta, o contraste percebido torna-se ainda mais intenso.

“Nosso cérebro sempre vai dar mais ênfase para o contraste do que para detalhes — é uma questão até de sobrevivência e economia de energia. Mudanças bruscas de cores quase sempre indicam onde um objeto começa ou termina”, explica Caio Britto, autor de Física do Sistema de Ensino pH.

Se o contraste físico sempre existiu, por que as chuteiras desta Copa cobram tanta atenção e parecem mais brilhantes do que nunca? A resposta está na evolução da indústria química e das telas de TV.

Primeiro, as chuteiras de hoje utilizam pigmentos genuinamente fluorescentes. Segundo o professor Felipe Ribeiro, há um truque quântico acontecendo nos pés dos atletas:

"Se o rosa for fluorescente, ele vai captar luz invisível (Ultravioleta, por exemplo) e transformar em luz visível, dando aquele efeito luminoso brilhante e chamativo, tanto ao vivo quanto na TV."

Em termos práticos: a chuteira absorve a luz invisível do sol ou dos refletores do estádio e a "devolve" para o ambiente como luz rosa visível.

Para completar, quem assiste de casa hoje conta com tecnologias como telas OLED, QLED e transmissões em HDR (Grande Alcance Dinâmico). Antigamente, as câmeras de TV e os televisores de tubo não conseguiam processar cores tão saturadas — o rosa borrava ou parecia um vermelho lavado.

Hoje, as telas modernas conseguem acender pixels individualmente com precisão, dando muito mais destaque para as chuteiras pink.


Fonte: G1